sábado, 19 de abril de 2008

Distrito da Luz Vermelha.



“Nascidos em Bordéis” é um documentário de uma fotógrafa americana sobre as crianças, filhas das prostitutas do bairro da Luz vermelha, em Calcutá. Em 2004, Zana Briski, diretora deste filme ganhou o Oscar de melhor documentário. Quem me falou do filme pela primeira vez foi uma documentarista brasileira a Camila Garcia. Ainda me lembro a empolgação, o brilho nos olhos, quando ela me descrevia o filme. Hoje Camila está gravando suas primeiras cenas de um trabalho sobre as prostitutas do parque da Luz, em São Paulo.

Ela tem razão, “Nascidos em Bordéis” é um filme que emociona mesmo quem não tem nenhum interesse por documentários. A história é simples, mas tratada de uma maneira belíssima. Ela veio para Calcutá fazer um trabalho fotográfico sobre a vida destas mulheres. A primeira coisa que a impressionou foram as crianças, que vivem ali no lugar onde as mães trabalham.

Quando cheguei hoje a tarde pude perceber perfeitamente o que motivou a fotógrafa a passar mais de 2 anos convivendo com estas crianças. O distrito não tem esse nome por acaso, é um bairro mesmo, melhor dizer, uma cidade, com atmosfera diferente de qualquer outro lugar que estive na Índia. Fomos com um guia, ele negociou com um rapaz que apareceu assim que descemos do táxis. Acabamos sendo guiados no bairro por um senhor de uns 70 anos. Segundo o guia e outras pessoas que falamos aqui, mais de 40 mil prostitutas vivem no local, é o segundo maior prostíbulo do mundo, só perde para o de Mumbai, também na Índia.

Era por volta de 16 horas da tarde, hora em que o sol começa a manchar de amarelo a paisagem, ou seja o melhor momento para trabalhar. Fomos porém avisados que se alguma câmera fosse avistada pelos moradores, as chances de perdê-la seriam muito grande.

Hoje ficou fácil entender o interesse por estas crianças, elas estão por toda parte e fazendo coisas que qualquer criança faz, em qualquer lugar, na idade delas.

Passamos a entrar nos prédios onde ficam as prostitutas. Eram edifícios de 3 ou 4 andares, com um corredor estreito. Assim que pisava os pés no prédio a mesma cena se repetia. Vía homens, sempre mais que um, deitados na entrada, ao lado da porta. Quase todos dormiam, fiquei sabendo depois que são os seguranças. Outra coisa recorrente, era o grito emitido pelo senhor que nos guiava, uma espécie de uivo, chamando as moças para as portas de seus quartos, assim poderíamos observá-las e fazer nossas escolhas.

Ele nos levou para conhecer as melhores, mais bonitas e as mais caras do bairro. Bem diferentes das mulheres que tínhamos cruzado poucos antes nas ruas iluminadas do distrito. Depois do quinto ou sexto prédio que entramos a situação estava ficando tensa. A comunicação tem sido uma das grandes dificuldade desta viagem. Ao contrário do que todos pensam sobre a Índia, nem todo mundo fala inglês. Por mais que tínhamos explicado que nosso interesse era conhecer e, na melhor das oportunidades fotografar o bairro, nem o guia nem o senhor que nos acompanhava estavam dispostos a entender, achavam que era apenas uma desculpa para que dois 'branquelos' pudessem usufruir do negócio que ali parecia tão normal.

Cada prédio a história se repetia. Enquanto o guia tentava negociar que fotografássemos, moças apareciam, se mostravam e quando percebia que não tinham passado por nossa aprovação, voltavam para seus quartos. Um show nos custou 1.550 rúpias, mais ou menos R$ 80,00. Nada muito diferente do que qualquer outro que vocês possam imaginar. Entramos os quatro (ela, o guia, eu e o Érico) um cubículo pequeno.

Sua apresentação, negociada para durar aproximadamente 40 minutos, foi interrompida 4 vezes. Duas delas para atender o telefonema do filho, um menino de uns 3 anos e as outras duas por causa de apagões, um outro problema diário da cidade. Na primeira interrupção, ela apenas abaixou o som da Britney Spears, sentou no meu colo e enquanto falava com o menino, me mandava beijos e me chamava de ‘sex guy’. Quando ela terminou a ligação o celular ficou do meu lado, na cama, e pude ver na tela iluminada, por vários minutos, o retrato de uma criança sorridente, acompanhada da mãe, que por sua vez dançava na minha frente para justificar o dinheiro que já havia recebido. Na segunda interrupção já tocava outra música indiana, que se não fosse a letra lembrava qualquer uma que escutamos por ai. O apagão foi meio constrangedor, ela já estava despida e se enrolou num véu preto e foi até a porta falar com as outras tantas pessoas do corredor.

Fiz alguma fotos escondidas, nada de muito especial e que pudesse expor alguém, mas foi uma grande experiência e indiferente da opinião que eu tenha sobre a prostituição ou que você possa ter, existe em Calcutá, na Índia uma cidade quatro vezes maior que a cidade que eu nasci no interior do Paraná totalmente voltada para este ofício.

8 comentários:

Camila Garcia disse...

menino....
meu bebê está estourando nesse planeta essa semana! já sinto uns primeiros indícios, mas nada muito forte.
quando vc voltar venha conhecer... ainda não sabemos o sexo, só sabemos q vai ser uma pessoinha bem amada (e de uma certa forma, sua responsabilidade)
aproveite a viagem
LINDAS imagens
bjinhos

cami gentile

Renato Negrão disse...

Camila desejo que ele chegue aqui, com esses pais lindos e especiais, com muita saúde, pois será mt bem vindo. Mande uma fotinho do bebê para eu conhecer. Fico feliz que um dia pude dar um bom conselho a alguem. Felicidades.
Beijos

caca disse...

E aí Renato, pelo jeito vc andou se divertindo com as indianas , né ? rsrsrsr Daqui a pouco o Duran terá um concorrente na Índia.
Há gente bonita na Índia ? Ou aquela atriz de nome impronunciavel e inescrevível que faz sucesso na Inglaterra é uma excecao ?
Eu nunca vi gente bonita proveniente daí. Confirma essa impressáo ? Ou hay guapos e guapas?
To adorando o mantra-enredo.
Vou indicar seu blog pro Nando Reis.
Hare, hare, hare, hare , krishna, krishna, krishna, krishna, Hare, hare...
abs
Rodolfo

Renato Negrão disse...

Caca (rsrrsrsrs)
Não disse no texto, mais depois da aventura vespertina fomos conhecer a melhor balada de Calcutá. Tive muito trabalho em escolher entre 4 boas possibilidades. if you know what I mean!!!. Hehehehehe
Bjs

Camila Garcia disse...

...estou por aqui. na correria, mas acompanhando seu blog diariamente. Obrigada pela citação...quero ver mais fotos do Bairro da Luz Vermelha depois. Saudades de vc....lindas as imagens da sequência em pb. Beijos,

rony disse...

Fala meu velho.
Cada dia melhora essas fotos, muito bom.....
Grande abrasssss....

Carol Baggio disse...

Renato,
quem me indicou o seu site foi o Suzuki e eu me apaixonei!!!
Achei a idéia ótima, até porque temos uma visão tão pasteurizada de alguns povos - na minha lista, além de Índia, incluo os países do oriente médio - que é ótimo conhecê-los por um olhar tão delicado como o seu.
Parabéns pelo trabalho!!
Abs
Carol

francielle disse...

oiiiiiiiiiiiiiii

tambem assisti esse documentario,muito bom mesmo...

o melhor documentrio que assisti ,mas tambem é uma dura realidade...

gostei muito do seu blog,e o assunto que foi debatido....

as fotos são belissimas...