sábado, 23 de janeiro de 2010

Últimas reflexões sobre Paris

Paris tem um certo ar de império decadente, uma sensação que tive repetidas vezes nesta viagem... Mais ou menos o que acontece em Istambul na Turquia, os resquícios de um passado glorioso que não encontra lugar na realidade.

Mas tem muita coisa em Paris para nos lembrar de como a cidade é importante na história da humanidade, e isso justamente acaba sendo uma de suas atrações. Acho que com esse espírito fica mais fácil entender os franceses e também a cidade.

Uma primeira experiência no metro, por exemplo, com certeza não passará em branco para o visitante recém chegado. Encontramos estações imundas, os trem ainda mantém a mesma distribuição dos acentos de quando foram construídos, há mais de um século, quando o número de pessoas que usavam este tipo de transporte era bem menor que os de agora.

Fazer uma viagem do sul ao norte da cidade, na hora do hush é uma experiência que acaba com sua boa vontade de viajante.

Os parisienses são sim mal humorados, mas tem um charme nisso que acho encantador. Basta você, mesmo que com um sotaque carregado, pronunciar algumas palavras em francês e pronto, pra onde foi parar toda aquela arrogância? É como se eles, inconscientemente talvez, quisessem manter viva a importância que a língua de Balzac teve no mundo.

Qual escritor francês atual você conhece? Pois é, esta deveria ter sido uma das perguntas para a estudante de literatura que nunca ouviu falar de nenhum escritor brasileiro. Com certeza ela poderia me dar uma lista, o que confesso, preciso muito.

Sentado num banco espaçoso do trem Eurostar, depois de ir até o vagão bar e tomar um café delicioso e há menos de 1 hora de chegar em Londres fico aqui pensando em tudo que passei nestes dias.

Vi lugares moderníssimos, como o museu Quai Branly e a cidade de Arquitetura, mas percebi nas ruas uma realidade muito paracida com os grandes problemas da maioria das cidades do mundo. Na própria maneira do francês se comportar diante da multidão de turistas que invade sua cidade procurando um passado que já não existe, rastros de uma história que não toma mais parte na atualidade e tendo que lidar com os grandes problemas dos imigrantes, muitos vindos de suas ex-colônias, como que pagando dívida de seus antepassados.

Quando estava em Paris, morreu um cineasta que eu gosto muito, o Eric Rohmer. Seu filme “O Raio Verte” é uma das obras cinematográficas que mais me marcou. Ele é uma síntese de tudo isso. Até o último filme, "Les amours d'Astrée et de Céladon", de 2007, ele manteve o mesmo traço. Um dos fundadores Nouvelle Vague partiu quase 30 anos depois de seu amigo Françoise Truffault, mas representou bem a maneira como pretendiam se comunicar com seu público, de uma maneira bem simples, com força no diálogo e na representação dos atores.

Andando pelos grandes bulevares fiz muito o que me encanta fazer numa viagem, ficar andando a esmo, e, como fotógrafo, observando a cidade.

Foi em Paris que surgiu a figura do flâneur, o poeta das ruas, um andarilho que observa a cidade e a reproduz. Hoje um termo muito usado pelos fotógrafos que gostam de fotografar as cidades. Cristiano Mascaro por exemplo sempre que fala de seu trabalho comenta que o faz pensando na figura do flâuneur.

Da Paris medieval, antes que o Barão Haussmann (1809 – 1891) destruisse tudo para transformar na cidade moderna e bem organizada que é hoje, só nos resta o trabalho do pintor e gravurista Charles Meryon, que viveu em Paris entre 1821 e 1868.
O poeta Baudelaire foi quem descobriu esse artista. Meryon registrou a cidade que estava deixando de existir durante a revolução industrial que mudou, não só Paris, mas o mundo em geral.

Não foi desta vez que tentei saber mais sobre esse artista que construiu sua obra observando uma cidade em transformação. Mas Paris é assim e enquanto o trem se aproxima do canal da Mancha, é bom que eu fique concentrado nestas ideias de uma nova visita a cidade, o que me ajudará a passar os 20 minutos caustrofóbico, embaixo de um braço do Oceano Atlântico que me levará a Inglaterra, onde uma nova viagem começa.


As fotos que ilustram este post são de estátuas da Monarquia antes da Revolução Francesa, que ficam no Jardim de Luxemburgo e de jovens de diferentes nacionalidades que visitam Paris e deixam seus recados entusiamados, num mural no piso superior da Shakespeare & Company.

2 comentários:

cumbucacheia disse...

Que lindo!!! Este post me vez lembrar de quando ao entrar na mesma padaria por três dias consecutivos em Paris, e sem falar nada de francês, arrisquei dizer "Boun jour!" e depois de três dias de cara feia recebi um lindo sorriso da atende pelo meu pequeno esforço. E gentileza gera gentileza, simples assim! Beijos

Anônimo disse...

Que boa ideia usar essas fotos com o texto, tudo a ver, o passado e o presente. Gosto muito de ler seu blog.

Marcia