domingo, 25 de janeiro de 2009

O Passar das horas

“Meu quarto está situado sob o quadragésimo quinto grau de latitude, conforme as medições do padre Beccaria; sua direção é do levante para o poente; ele forma um retângulo que mede trinta e seis passos, seguindo-se bem rente à parede. Todavia, a minha viagem há de conter mais que isso; pois atravessarei o quarto muitas vezes no comprimento e na largura, ou então diagonalmente, sem seguir regra nem método. – Farei até ziguezagues, e percorrerei todas as linhas possíveis em geometria, se a necessidade o exigir.

Não gosto das pessoas que são tão donas dos seus passos e das suas ideias, que dizem: “Hoje eu farei três visitas, escreverei quatro cartas, terminarei esta obra que comecei”. – A minha alma é de tal modo aberta a toda sorte de ideias, de gostos e de sentimentos; recebe tão avidamente tudo o que se apresenta!...

– E por que haveria ela de recusar os gozos que estão dispersos pelo difícil caminho da vida?
Eles são tão raros, tão disseminados, que seria preciso estar louco para não se deter, desviar-se mesmo do próprio caminho, para colher todos os que estiverem ao nosso alcance.
Não há nenhum mais atraente, no meu entender, do que o de seguir a pista das próprias ideias, como o caçador persegue a caça sem que pareça observar qualquer rota. Por isso, quando viajo pelo meu quarto, raramente percorro uma linha reta: vou da minha mesa até um quadro colocado num canto; dali parto obliquamente para ir até a porta; mas, embora esta seja a minha intencão ao partir, se no caminho encontro a minha poltrona não faço cerimônia e acomodo-me nela imediatamente. – É um excelente móvel uma poltrona; é, sobretudo, de extrema utilidade para todo homem meditativo. Nas longas noites de inverno, é algumas vezes agradável e sempre prudente nela nos recostar-mos indolentemente, longe do fragor das assembléias numerosas. – Uma boa Lareira, livros, penas; quantos recursos contra o tédio! E que prazer, também, esquecer os livros e as penas para atiçar fogo, entregando-se a alguma doce meditação, ou compondo umas rimas para alegrar os amigos!
As horas então deslizam sobre nós, e caem em silêncio na eternidade, sem nos fazer sentir a sua triste passagem”

Texto de Xavier de Maistre

2 comentários:

Santiago disse...

então o REM faz parte de seu quarto?

Que coisa boa. Queria ter a companhia dele tb...

Lindo o texto do Xavier

Yeda disse...

Reee.. eee..
e eu que fiquei pensando bem aqui comigo como esse menino é bom das fotos e das idéias. Gosto tanto de você. Amigo lindo.